Aspectos clínicos e socioeconômicos das.pdf

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Aspectos clínicos e socioeconômicos das
dislipidemias em portadores de doenças
cardiovasculares
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Ana Paula Zambuzi Cardoso,
2
Maria Suely Nogueira,
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Miyeko Hayashida,
4
Luiz de Souza,
5
Evandro José Cesarino |
1 Farmacêutica, mestranda em
Biociências Aplicadas à Farmácia
pela Faculdade de Ciências
Farmacêuticas de Ribeirão
Preto (FCFRP-USP). Endereço
eletrônico: ana.paula.cardoso@
usp.br
2 Enfermeira, livre-docente em
Enfermagem pela Escola de
Enfermagem de Ribeirão Preto
(USP) Endereço eletrônico:
msnog@eerp.usp.br
3 Enfermeira, doutora em
Enfermagem Fundamental
pela Escola de Enfermagem de
Ribeirão Preto (USP). Endereço
eletrônico: miyeko@eerp.usp.br
4 Estatístico, professor doutor
aposentado da Faculdade de
Medicina de Ribeirão Preto
(USP). Endereço eletrônico:
ldsouza@fmrp.usp.br
5 Médico cardiologista,
professor do Departamento de
Análises Clínicas Toxicológicas e
Bromatológicas da FCFRP-USP,
doutor em Saúde Preventiva
pela FMRP-USP. Pesquisador
CNPq. Endereço eletrônico:
cesarino@fcfrp.usp.br
Resumo:
o presente artigo aborda os aspectos
clínicos e socioeconômicos decorrentes da presença de
dislipidemias em portadores de doenças cardiovasculares
(dCV). existem inúmeros estudos relacionados às
dCV, uso de hipolipemiantes orais como as estatinas,
e os aspectos econômicos envolvidos com impacto na
área da saúde. além de evidenciar a importância do
tratamento das dislipidemias, o artigo busca demonstrar
o ponto de vista farmacoeconômico, ou seja, dos custos
gerados com o tratamento farmacológico desta patologia
versus
os custos decorrentes dos eventos cardiovasculares
acometidos e suas consequências. existe, portanto,
relevante relação entre os impactos sociais decorrentes
de incapacidade física e laborativa, aposentadorias
precoces, entre outros custos importantes que poderiam
ser evitados com uma análise econômica abrangente
e eficiente realizada nos serviços de saúde do Brasil.
neste contexto, é enfatizada a importância da análise
conjunta dos aspectos clínicos e socioeconômicos das
dislipidemias que poderiam influenciar nas decisões
das autoridades de saúde no momento da elaboração
de protocolos clínicos de tratamentos farmacológicos a
serem implementados no sus.
Palavras-chave:
doenças cardiovasculares; dislipidemias;
estatinas; economia em saúde.
Recebido em: 19/02/2011
Aprovado em: 22/04/2011.
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Introdução: dados epidemiológicos
das doenças cardiovasculares
as doenças cardiovasculares (dCVs) constituem a principal causa de óbito em
importante parcela da população adulta, particularmente aquela maior de 30
anos de idade na maioria dos países do ocidente. tal posição tem sido mantida,
apesar do declínio acentuado da mortalidade cardiovascular observada nos países
desenvolvidos, nas últimas décadas (BeaGleHole, 1990).
até meados do século XX, a idade era considerada o maior fator determinante
da ocorrência das dCVs, em especial da doença arterial coronária (dC).
estudos posteriores mostraram que pacientes sobreviventes de infarto agudo do
miocárdio (IaM) apresentavam níveis séricos mais elevados de colesterol total
(Ct), quando comparados a pacientes sadios (XaVIeR, 2004).
a despeito do grande avanço científico ocorrido nas últimas décadas, na
prevenção e no tratamento das dCVs, estima-se que estas serão responsáveis
por 40% de todas as mortes ocorridas no mundo em 2020, o dobro daquelas
esperadas devido ao câncer, com uma estimativa de 11,11 milhões de mortes
(MuRRaY; loPeZ, 1996).
nos eua, desde 1984 morrem mais mulheres devido a causas cardiovasculares
do que homens. em 2001, cerca de 500 mil mulheres e 430 mil homens foram
a óbito por dCV nesse país. as razões para explicar este fato incluem a maior
expectativa de vida feminina, a menor taxa de mortes por violência e a maior
frequência de complicações cardiovasculares entres as mulheres (aHa, 2004).
nos últimos 30 anos, ocorreu um declínio da mortalidade por dCV em
países desenvolvidos, enquanto elevações relativamente rápidas e substanciais
têm ocorrido em países em desenvolvimento, dentre os quais o Brasil. de acordo
com as projeções da organização Mundial da saúde (oMs), esta elevação das
dCVs tende a persistir, agravando o quadro de morbimortalidade elevadas nesses
países (sBC, 2007).
em relação ao Brasil, a prevalência das dCVs varia de acordo com as regiões
brasileiras. nos estados do sul e sudeste, por exemplo, observou-se maior
percentual de óbitos por causa cardiovascular, 33,5% e 34,9%, respectivamente.
em 1930, a percentagem de
causa mortis
por doenças do aparelho circulatório
(daC) no Brasil era de 12%; entretanto, em 1999 essa percentagem triplicou,
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dislipidemias e suas consequências
as dislipidemias consistem em modificações nos níveis lipídicos na circulação,
caracterizando qualquer alteração envolvendo o metabolismo lipídico, sendo
classificadas em primárias (origem genética) ou secundárias (doenças, estilos de
vida, medicamentos, entre outros). o maior impacto das dislipidemias nas dCVs
se deve às hiperlipidemias. as dislipidemias, em especial as hiperlipidemias,
causam alterações do sistema de hemostasia, aumentando a formação da placa
aterosclerótica, quer induzindo a formação de trombos que irão ocluir as artérias,
interrompendo o fluxo sanguíneo e causando morte tecidual (MIlleR, 1994).
de acordo com a sociedade Brasileira de Cardiologia (sBC), 40% dos brasileiros
têm Ct
200 mg/dl e 13% têm Ct
240 mg/dl (MaRtIneZ, 2003).
a aterosclerose é uma doença inflamatória crônica dependente de diversos
fatores e é resposta à agressão endotelial, afetando artérias de médio e grande
calibre. esta patologia era considerada uma doença degenerativa, de progressão
lenta e apresentando sintomas decorrentes de interferências mecânicas no fluxo
sanguíneo. Contudo, pesquisas recentes têm mostrado que os componentes celulares
e moleculares do desenvolvimento e da progressão da aterosclerose parecem ser um
processo dinâmico, inflamatório e modificável (MaRtIneZ, 2003).
os processos ateroscleróticos, incluídos nas daCs, têm como principais
manifestações as cerebrovasculares, coronárias e insuficiência cardíaca (IC).
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Aspectos clínicos e socioeconômicos das dislipidemias em portadores de doenças cardiovasculares
chegando a 32% (BRasIl, 2002a). este fato provavelmente pode ser atribuído à
elevada prevalência de fatores de risco modificáveis e tratáveis para a aterosclerose,
tais como as dislipidemias (FonseCa, 2003).
no Brasil, em 1998, o principal grupo de doenças que acarretaram internações de
idosos com 60 anos ou mais de idade foi a daC, sendo a insuficiência cardíaca (IC)
a principal causa básica de internação hospitalar nesta faixa etária (BRasIl, 2002b).
no ano de 2005, a mortalidade por daC na cidade de são Paulo-sP situou-se
em 32,3%, sendo que de um total de 100.000 habitantes, houve ocorrência de
IaM e de dCV em 42,1% e 49,4%, respectivamente (BRasIl, 2007).
Já com relação a 2006, a percentagem de internações por daC no Brasil
foi de 10,11%, equivalente a 1.146.867 internações. só a cidade de são Paulo-
sP foi responsável por 56.463 internações por daC, sendo que 77,98% desses
indivíduos se situavam na faixa etária acima de 50 anos (datasus, 2008).
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Quando acometem as artérias coronárias, podem provocar, por exemplo, IaM,
angina pectoris
e IC; já o acometimento no território cerebral pode ocasionar
derrames ou acidente vascular encefálico (aVe) e aneurismas; nas artérias dos
membros inferiores, podem ocasionar dores e gangrenas; nos intestinos, colites
isquêmicas; nos órgãos genitais masculinos, podem gerar impotência; e nas
grandes artérias, pode haver dilatação da aorta como aneurismas no tórax ou no
abdome (MIon JR; noBRe, 2002).
dentre as enfermidades cardiovasculares, a doença isquêmica cardíaca (dIC) e
as doenças cerebrovasculares (dCBs) são as mais frequentes (CHoR et al., 1995).
em 1998, as três principais causas de óbitos no Brasil foram a dCBs, seguida
da dIC e o IaM, acarretando 217.150 mortes. em 2000, a IC ficou na quinta
posição dentre as causas mais frequentes de internação, com 398.489 internações
no país. esta situação clinica se situou também na quinta posição dentre as causas
responsáveis pelos maiores gastos globais com internações do sistema único de
saúde – sus (BRasIl, 2002b).
o estudo de Framingham demonstrou que, enquanto na população
masculina, a dIC predomina na meia idade, na feminina predomina após a
menopausa, passando a ser a principal causa de morte nas idades acima de 50 anos
(leRneR; Kannel, 1986). Calcula-se que 0,2% da população mundial seja
hospitalizada todos os anos, principalmente para o tratamento da IC, e o volume
de internações deste tipo está aumentando significativamente (McMuRRaY,
1993; GIlluM, 1993; andeRson; WaGsteIn, 1993).
no Reino unido, a IC responde por pelo menos 5% de todas as internações
de medicina e geriatria, superando o número de pacientes admitidos com IaM e
angina instável (PaRaMesHWaR et al., 1992; McMuRRaY, 1993). a duração
média da hospitalização por IC no Reino unido é de duas semanas; nos eua, a
hospitalização é menos demorada (McMuRRaY, 1993; GIlluM, 1993).
estima-se que, em relação à população geral, a IC determine uma redução
na expectativa de vida de 6,7 anos nos homens e de 5,1 nas mulheres por 1.000
pessoas (steWaRd, 2001).
o aVe é um problema de saúde mundial em ambos os sexos, com incidência
de 600 mil casos novos ou recorrentes ao ano. o aVe responde por uma em cada
14 mortes nos eua, sendo a terceira causa de morte entre as dCVs (aHa, 2002).
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e, embora tenha havido declínio na mortalidade por aVe nos eua, o número de
mortes atribuíveis a esta moléstia tende a se elevar por um desnível entre o declínio
da mortalidade por aVe e o envelhecimento da população (nHlBa, 2002).
a ruptura de aneurisma de aorta abdominal ocupa o décimo lugar entre as
causas de morte em homens acima de 55 anos, porém quando diagnosticado
precocemente, a mortalidade cai para 5% ou menos. à medida que a população
envelhece, a diferença entre a incidência de aneurismas de aorta entre homens e
mulheres tende a diminuir (GaGlIaRdI; RoMItI, 2005).
a análise da morbidade hospitalar por daC de 1987 a 1992 em Ribeirão
Preto-sP revela-nos que o número médio de internações anuais por daC foi
de 10.116, número médio de óbitos anuais por daC foi de 841 (8,4% das
internações por daC) e a IC foi a principal causa de hospitalização por daC
(16,3% das internações por daC) (CesaRIno; VICHI, 1995).
no ano de 1995, as daCs representaram 30,8% dos óbitos entre pessoas
residentes em Ribeirão Preto-sP, ocorrendo 199 óbitos devidos a IaM (6,5%),
constituindo a segunda principal causa básica de óbitos entre pessoas residentes
em Ribeirão Preto-sP (RIBeIRÃo PReto, 1996). neste mesmo ano,
ocorreram 18.766 internações hospitalares, tendo como diagnóstico principal as
daCs (10,98% do total das internações) em hospitais de Ribeirão Preto-sP e
região, resultando em 1.312 óbitos (7%) (usP, 1999).
Podemos citar os indicadores de magnitude da hiperlipidemia como problema
social, tais como sua mortalidade devido à elevada prevalência; mortalidade
decorrente de suas complicações como causas básicas ou associadas; custos
diretos com morbidade como internações, demanda ambulatorial e custos globais
com tratamento, controle e reabilitação; custos sociais: taxa de absenteísmo ao
trabalho, benefícios sociais (auxílio-doença, pensões e aposentadoria por doença)
e anos de vida produtiva perdidos; e por fim, as repercussões sociais como
qualidade de vida de pacientes e famílias, além de afetar a produtividade e o
crescimento econômico do país (BRasIl, 1993a).
a implementação de programas educativos permanentes voltados para o
esclarecimento dos fatores de risco cardiovasculares junto à população poderá,
no longo prazo, ter efeitos favoráveis na redução da morbimortalidade por dCV
(CesaRIno et al., 1997).
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